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Desperdício de energia renovável impulsiona debate sobre usinas reversíveis

O crescimento da geração de energia solar e eólica no Brasil tem trazido um desafio cada vez mais presente para a operação do sistema elétrico: o desperdício de energia renovável produzida em períodos de excesso de oferta. Para discutir soluções para esse cenário, especialistas do Brasil, Portugal e China se reuniram na última quinta-feira (25), na sede da Copel, em Curitiba, durante workshop sobre Usinas Hidrelétricas Reversíveis promovido pelo Comitê Brasileiro de Barragens (CBDB).

O presidente do Comitê Brasileiro de Barragens (CBDB), Miguel Augusto Zydan Sória, destacou que as usinas reversíveis surgem como uma resposta aos desafios trazidos pela expansão das fontes renováveis no país.

“As usinas reversíveis vêm para atender um desequilíbrio que já está ocorrendo no sistema elétrico com o avanço das fontes renováveis, especialmente a solar e a eólica. A lógica é aproveitar a energia excedente produzida nos momentos de sobra para realizar o bombeamento da água e, posteriormente, recuperar essa energia nos horários de maior demanda. É uma solução que aumenta a eficiência do sistema e contribui para o melhor aproveitamento da energia limpa produzida no país”, revelou.

A discussão ocorre em um momento de transformação do sistema elétrico nacional. A ampliação da participação das fontes renováveis intermitentes, especialmente solar e eólica, contribui para uma matriz mais limpa, mas também exige maior flexibilidade operacional para equilibrar geração e consumo em tempo real.

O superintendente adjunto de Geração de Energia da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Caio Monteiro Leocádio, avalia que o armazenamento será fundamental para garantir a segurança e a flexibilidade do sistema elétrico brasileiro nos próximos anos.

“Com o avanço das fontes renováveis, o sistema elétrico passou a demandar não apenas energia, mas também potência, flexibilidade e serviços ancilares. As usinas reversíveis conseguem entregar esse conjunto de atributos e ainda aproveitam excedentes de geração que hoje acabam sendo cortados, transferindo essa energia para os horários de maior demanda. É uma tecnologia madura, já consolidada em diversos países, e que tem potencial para contribuir significativamente com os desafios futuros do setor elétrico brasileiro”, diz.

O desafio do curtailment

Um dos reflexos desse processo é o aumento dos episódios de curtailment, termo utilizado para descrever a redução ou interrupção da geração de usinas renováveis por excesso de oferta de energia ou limitações da rede elétrica. Na prática, parte da energia produzida deixa de ser aproveitada justamente nos momentos em que há maior disponibilidade de geração.

As usinas hidrelétricas reversíveis, ou Sistemas de Armazenamento de Energia Hidráulica (SAEHs), surgem como uma das principais alternativas para enfrentar esse desafio. A tecnologia permite armazenar energia excedente por meio do bombeamento de água para um reservatório localizado em nível mais elevado. Quando o sistema necessita de energia, a água retorna ao reservatório inferior, movimentando turbinas e gerando eletricidade.

Esse mecanismo permite transformar excedentes de energia que seriam desperdiçados em uma reserva estratégica para utilização nos horários de maior demanda. A solução também contribui para reduzir a necessidade de acionamento de usinas termelétricas, normalmente utilizadas para atender os picos de consumo e que apresentam custos operacionais mais elevados e maiores emissões de gases de efeito estufa.

A discussão também mobiliza governos estaduais, que acompanham o avanço das tecnologias de armazenamento como parte das estratégias para garantir maior segurança e flexibilidade ao sistema elétrico.

Paraná reúne condições favoráveis

O superintendente de Gestão Energética do Paraná, Sandro Vieira, afirma que o estado reúne condições favoráveis para se tornar referência no desenvolvimento de projetos de armazenamento hidráulico. “O Paraná possui características muito favoráveis para o desenvolvimento de sistemas de armazenamento hidráulico de energia. Com uma matriz elétrica aproximadamente 97% renovável, fortemente apoiada na geração hidrelétrica, além do crescimento da energia solar e de outras fontes limpas, o estado reúne condições naturais e estruturais para avançar nessa tecnologia. O armazenamento energético representa uma oportunidade importante para ampliar a capacidade do sistema e apoiar o desenvolvimento regional”, revela.

Além do armazenamento de energia, os SAEHs oferecem benefícios importantes para a operação do sistema elétrico, como suporte ao controle de frequência, regulação de tensão, resposta rápida a variações de carga e aumento da confiabilidade do suprimento.

Caminho para a transição energética

O tema vem sendo estudado no âmbito de um projeto de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PDI), que busca estruturar modelos regulatórios e de negócios capazes de viabilizar a implantação desses empreendimentos no Sistema Interligado Nacional. O objetivo é identificar os mecanismos necessários para que o armazenamento de energia seja adequadamente valorizado no setor elétrico brasileiro.

Um dos desafios está relacionado às características próprias dessa tecnologia. Diferentemente das usinas convencionais, os sistemas de armazenamento não produzem energia líquida adicional. Seu papel é deslocar energia no tempo, armazenando eletricidade em momentos de sobra e disponibilizando-a quando ela é mais necessária para o sistema.

Na avaliação da Copel, o avanço acelerado das fontes renováveis intermitentes tornou o armazenamento de energia um elemento central para a expansão sustentável da matriz elétrica brasileira.

O superintendente de Novos Negócios da Copel, Milton dos Santos, ressaltou que o armazenamento é peça-chave para viabilizar a continuidade da expansão das fontes renováveis intermitentes. “O crescimento da geração solar e eólica aumentou a necessidade de novas soluções de armazenamento. Hoje, já observamos situações em que o Operador Nacional do Sistema precisa restringir a geração dessas fontes por excesso de oferta em determinados horários. Nesse contexto, os sistemas de armazenamento de energia hidráulica despontam como uma alternativa de grande porte, com longa vida útil e capacidade de dar suporte à expansão das fontes renováveis”.

“A Copel tem apostado tanto na ampliação de usinas hidrelétricas existentes quanto no potencial das usinas reversíveis, e o Paraná reúne condições bastante favoráveis para o desenvolvimento desses empreendimentos”, completou. O projeto também analisa formas de integração dos SAEHs com usinas hidrelétricas já existentes, estratégia que pode ampliar o potencial de implantação da tecnologia com menor impacto socioambiental e maior aproveitamento de infraestruturas já instaladas.

O avanço da geração renovável torna o desenvolvimento de soluções de armazenamento uma discussão cada vez mais estratégica para o futuro do setor elétrico. O entendimento é que a transição energética não depende apenas da expansão das fontes limpas, mas também da capacidade de armazenar energia, reduzir perdas, aumentar a flexibilidade operacional e garantir segurança ao fornecimento de eletricidade.

O workshop contou com a participação de representantes de Portugal e China, além de especialistas e representantes de instituições ligadas ao planejamento e à operação do sistema elétrico.

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