Eletrovia da Copel dobra número de recargas em 2020

Publicado em 19 de janeiro de 2021

Companhia se prepara para aumento do uso de veículos elétricos com projetos que viabilizam da gestão do consumo à integração de eletrovias 

Eletroposto do polo da Copel no bairro Mossunguê, em Curitiba.

Faz pouco mais de dois anos que a Copel inaugurou a maior eletrovia com postos de recarga rápida para carros elétricos do País e o balanço deste período, analisam especialistas, é promissor. Além de ver um aumento significativo no número de abastecimentos, a Companhia vem investindo em pesquisas de mobilidade elétrica que prometem, num futuro próximo, refletir diretamente no consumidor de veículos elétricos. 

A eletrovia paranaense foi inaugurada no final de 2018, com a instalação de 12 postos de recarga ao longo de 730 quilômetros da rodovia BR-277, ligando o extremo leste ao extremo oeste do Estado. O projeto era pioneiro no Brasil, fruto de uma parceria entre a Companhia Paranaense de Energia, a Copel, e Itaipu Binacional. Resultado de um investimento de R$ 5,5 milhões, a Eletrovia promove desde então recargas gratuitas a qualquer usuário que queira abastecer seu veículo elétrico de maneira rápida em qualquer um dos eletropostos. 

Como todo projeto de pesquisa e desenvolvimento, a proposta deste era avaliar os resultados para reunir academia e mercado em um objetivo: viabilizar a mobilidade elétrica. “E percebemos que, no que depende de nós, isso está sendo alcançado. Temos resultados muito interessantes”, avalia o superintendente de Smart Grid e Projetos Especiais da Copel, Julio Omori.  

No primeiro ano de operação (2019) os eletropostos da Copel somaram 330 recargas, totalizando um consumo de 2.914 kWh de energia. Em 2020, o número de abastecimentos quase dobrou: foram 600 recargas em toda a eletrovia. A maior parte delas concentrada na estação de Curitiba, localizada no polo da Copel da BR-277, no Mossunguê, com 230 abastecimentos em 2019 e 370 em 2020.  

Já o consumo, este aumentou em cerca de 6,5 vezes em relação ao primeiro ano, totalizando 19 mil kWk. “Isso se deve ao fato de que o total de energia entregue individualmente cresceu, por conta da presença de veículos puramente elétricos com maior capacidade de bateria”, analisa o engenheiro eletricista da Copel Zeno Nadal, responsável pelo projeto da Eletrovia. A média de recargas fica na faixa de 20 kWh, o que dá uma autonomia média ao veículo de 200 km, a um custo estimado de R$ 17 – lembrando que, por enquanto, as recargas não são cobradas do usuário, já que se  trata de um projeto de pesquisa e desenvolvimento e os custos são subsidiados com recursos do projeto. 

No entanto, o fator que parece ter impulsionado mais o uso dos eletropostos está relacionado não necessariamente à gratuidade, mas à disponibilidade da recarga rápida: nos eletropostos da Copel, leva-se de meia a uma hora para carregar 80% da bateria do veículo. “Os veículos com baterias de grande capacidade tiveram um aumento expressivo no mercado ao longo de 2020. Em um carregador doméstico, a recarga desses veículos poderia durar de 12h até 24h”, lembra Nadal. 

Engenheiro da Copel, Zeno Nadal abastece veículo em eletroposto da BR-277

Crescimento de mercado 

De fato, as vendas de veículos elétricos e híbridos vêm crescendo e batendo recordes no Brasil, embora os modelos ainda componham fatia modesta do mercado da mobilidade (1%). Em 2020, foram vendidos 19.745 veículos eletrificados no país, entre automóveis e comerciais híbridos não plug-in e plug-in (HEV ou PHEV) e os puramente elétricos a bateria (BEV). Em 2019 este número foi de 11.858 – o que representa um aumento de 66,5% nas vendas, mesmo com a pandemia de Covid-19. Os dados são da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE). Somente entre os carros puramente elétricos, as vendas em 2020 somaram 857 unidades, contra 559 em 2019.  

O Paraná conta hoje com 512 veículos elétricos, segundo o Detran-PR. Em 2019, este número era de 362, o que evidencia um aumento de 70% na frota, seguindo a média de aumento nacional.  

Futuro da demanda 

Com mais carros elétricos circulando e um mercado que se mostra promissor, a Copel está se preparando para o futuro. “A grande preocupação é com o impacto que a inserção massiva de veículos elétricos possa causar nas redes de distribuição, assim como a necessidade extra de energia. Pesquisas indicam que a maioria das recargas dos veículos elétricos é feita nas residências, durante o período noturno. Isto também acontece com frotas de ônibus e caminhões urbanos (recarga nas garagens). Estas recargas, sob determinadas condições, poderiam causar uma sobrecarga em alimentadores em períodos que são normalmente de baixa demanda”, afirma Julio Omori.  

Antevendo a questão, a Copel realizou em 2018 uma chamada de P&D estratégico especialmente dedicada ao assunto, a chamada 22/18 da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). “Desde então temos projetos de pesquisa para o desenvolvimento de sistemas de gestão para as recargas e proposição de novas modalidades tarifárias, que, em conjunto, vão contribuir para a normalização do consumo ao longo das madrugadas, otimizando o uso inteligente da energia. Isto somente é possível com a implantação das redes inteligentes, que já estão sendo realizadas em outro projeto da Copel”, lembra o superintendente. 

Além deste P&D, a chamada resultou em outros, que estudam questões relacionadas ao armazenamento de energia em baterias que permitam compartilhamento entre residências e veículos elétricos; estudo de tarifação; implantação do “posto do futuro”, para multiplicação de estações de recarga; e a gestão de produção/consumo pelo lado da demanda, baseada na figura do prosumidor. “É uma junção das palavras producer (produtor) e consumer (consumidor) e seu significa nada mais é que o consumidor que atua ao mesmo tempo como produtor e consumidor. Isso significa que ele irá produzir energia para consumo próprio e para exportação do excedente para a rede de distribuição, sob determinadas condições. Os resultados dos projetos visam a apontar as possíveis soluções, técnicas e regulatórias, para que o relacionamento entre a distribuidora e os prosumidores aconteça de forma harmônica, potencializando os ganhos da geração distribuída com as necessidades de operação das redes e qualidade de energia”, explica o engenheiro Zeno Nadal. 

E o que vem depois? 

Integração. Afinal, estes veículos precisam ter infraestrutura para rodar sem limites. “A diferença do valor do veículo elétrico está diminuindo em relação ao tradicional. A quantidade de veículos vendidos tem aumentado muito e o custo das baterias tem diminuído drasticamente. Vamos ver uma explosão da demanda nos próximos anos”, adianta Omori. 

Com isso, além das questões práticas de abastecimento, tarifação e gestão da energia já estudadas nos projetos da Copel, a integração de eletrovias entre os estados do Sul e países vizinhos já é uma realidade muito próxima. “Estamos estudando a colocação de um eletroposto nosso e a Celesc (concessionária de energia de Santa Catarina), dela, na região de Tijucas do Sul/Garuva. Com isso, teremos uma estrutura que permitirá a integração praticamente até o Rio Grande do Sul”, diz.  

A partir dali a CEEE, concessionária do RS, também já aprovou projeto de P&D e assinou contrato de execução para instalar eletropostos no Estado, interligando a BR-101 com o Uruguai. “Lá a rede já é bem robusta, e nós aqui estudamos instalações por meio de Itaipu para interligar nossa eletrovia até Assunción, no Paraguai”, antecipa o superintendente. “Falta muito pouco para termos praticamente todo o Mercosul interligado.”  

Número de recargas dobrou de 2019 para 2020, porém, consumo total da energia para o abastecimento aumentou em 6,5 vezes, por conta do aumento de carros puramente elétricos em circulação.